# News 0084: O Médico Largou a Caneta

> Uma healthtech brasileira pôs a IA para ouvir a consulta e escrever o prontuário sozinha, enquanto o médico apenas revisa e assina. O agente Tom entra num time de IA que já responde por 30% do faturamento da Tivita, e o padrão por trás dele, rascunho automático com revisão humana, é o mesmo que está reorganizando qualquer trabalho de atendimento.

Categoria: IA/Tech  ·  Data: 21 de setembro de 2026  ·  Leitura: 8 min

URL: https://gabrielkruger.com/news/o-medico-largou-a-caneta

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A cena é tão comum em consultórios brasileiros que quase ninguém mais repara nela: um médico dividido entre o paciente à sua frente e a tela do computador, tentando não perder nenhum detalhe enquanto digita. A atenção rachada ao meio cobra caro dos dois lados da mesa. Custa qualidade de escuta, custa contato visual, custa histórico incompleto quando o registro é escrito com pressa. E é exatamente essa cena, a da atenção dividida entre ouvir e anotar, que a Tivita decidiu atacar de frente.

A plataforma brasileira de automação para clínicas acaba de lançar o Agente Digital Tom, um sistema de inteligência artificial que ouve a conversa entre médico e paciente e escreve o prontuário sozinho, sem que o profissional precise digitar uma linha durante o atendimento [1]. É a primeira vez que a empresa entra na própria consulta: até aqui, ela só automatizava o que acontecia antes e depois dela, como agendamento, cobrança e emissão de documentos. A aposta vem de uma base já consistente. Fundada em 2023 por Cláudio Franco e Amilton Paglia, a Tivita captou R$ 32 milhões em 2024 em rodada liderada pelo fundo americano FinTech Collective, atende mais de mil clínicas em todos os estados do país e já processou mais de R$ 1 bilhão em pagamentos [1]. Mais de 3 milhões de prontuários já passaram pela plataforma, entre registros migrados de outros sistemas e documentos criados ali mesmo, palavra por palavra [1].

> A Tivita já cuidava de tudo o que acontece antes e depois da consulta. O gargalo que sobrou foi o registro do que acontece dentro do consultório.
>
> Cláudio Franco, CEO e cofundador da Tivita [1]

## O custo invisível da caneta

O problema que o Tom ataca não é impressão de quem atende demais, é número medido em estudo. Uma pesquisa da American Medical Association constatou que, dentro do expediente, médicos dedicam 27% do tempo ao contato clínico direto com o paciente e 49% ao prontuário eletrônico e outras tarefas administrativas, além de uma a duas horas por noite concluindo registros fora do horário de trabalho [2]. Outro estudo, da Northwestern Medicine, gravou consultas com uso de prontuário eletrônico e constatou que os médicos passam cerca de um terço do tempo olhando para a tela em vez de para o paciente, o que compromete a leitura de sinais não verbais e a qualidade da escuta clínica [2]. Na prática, um profissional que atende oito horas por dia pode passar quase quatro delas diante da tela, preenchendo formulário em vez de examinar e conversar [2]. O efeito não fica restrito ao médico: o paciente percebe a atenção dividida, o histórico corre mais risco de ficar genérico e a agenda perde fôlego porque cada atendimento demora mais para ser fechado.

> O médico gasta de 30 a 40% preenchendo dados no prontuário. Com uma IA, ouvindo e transcrevendo, o médico poderia apenas ler e validar. Isso liberaria mais tempo para o profissional dedicar mais tempo ao paciente.
>
> Giancarlo Domingues, head médico de inovação do Grupo Dasa [2]

> Insight: O detalhe que escapa na manchete: os agentes digitais Júlia (agendamento via WhatsApp), Taís (burocracia de convênios) e agora Tom já respondem por cerca de 30% do faturamento recorrente da Tivita, e a projeção do próprio CEO é chegar a entre 45% e 50% em 12 meses [1]. Na leitura de Franco, cliente que adota um agente tende a adotar outro [1]. Em healthtech, IA deixou de ser recurso de pitch para vir linha de receita mensurável.

## Como o escreba digital funciona

Do ponto de vista técnico, o Tom é um caso de ambient scribing, o padrão que está se consolidando em saúde: o sistema captura o áudio da consulta, transcreve, estrutura o conteúdo em linguagem clínica e devolve um rascunho de prontuário adaptado à especialidade. O médico apenas lê, ajusta e assina [1]. As gravações usadas para gerar o texto são apagadas logo depois da transcrição; só o registro final fica guardado [1]. A meta operacional é agressiva: 100 mil horas de consulta transcritas por mês, o equivalente a mais de 11 anos de áudio contínuo rodando todo mês sem parar [1]. Como o próprio CEO resume, contrato assinado diz pouco aqui, porque um escreba clínico só entrega valor se o profissional o usa em toda consulta [1]. E há referência de ganho fora do Brasil: estudos de qualidade com ferramentas do tipo mostraram redução de 20,4% no tempo gasto em notas por consulta, de 10,3 para 8,2 minutos, além de 30% menos trabalho de documentação após o expediente [3]. Numa agenda com vinte atendimentos por dia, cada minuto economizado por consulta devolve horas inteiras à semana.

> Essa fronteira é uma escolha de produto, não uma limitação técnica que vamos remover depois.
>
> Cláudio Franco, CEO da Tivita [1]

Colocar uma IA para ouvir uma consulta médica é um salto de confiança bem maior do que automatizar uma cobrança ou um agendamento, e a empresa desenhou limites explícitos para o que a ferramenta pode fazer: o Tom não diagnostica, não prescreve, não decide nada sozinho, só escreve um rascunho que o próprio médico revisa e assina antes de qualquer coisa entrar no prontuário [1]. Em saúde, erro de documentação tem consequência clínica e jurídica, então a barreira humana no final do fluxo não é burocracia, é camada de segurança. Esse formato, a máquina produz o primeiro rascunho do trabalho estruturado e o humano mantém a assinatura, é o mesmo que está se consolidando em toda automação de conhecimento, dentro e fora da medicina. Quem trata a revisão humana como gargalo a remover está lendo o processo errado; quem trata como assinatura de responsabilidade está lendo certo.

No Brasil, a adoção já passou da fase de curiosidade. Um levantamento da MV com 112 médicos mostra que 66% já usam IA na rotina, e que o maior obstáculo à adoção é preço, não desconfiança na tecnologia [4]. No terreno dos agentes, a dr.consulta afirma gerar R$ 1,2 milhão por mês com agentes de IA, com aumento de 60% nas vendas pelo WhatsApp e economia operacional de 75% [5]. Ou seja: a pergunta relevante deixou de ser se a IA entra na operação e virou onde ela entra primeiro com retorno mensurável. O consultório é só o endereço mais óbvio porque o custo da anotação manual ali é alto, recorrente e fácil de medir em horas.

> A IA não está substituindo o julgamento do médico. Está devolvendo o tempo que a burocracia tomou.
>
> Gabriel Krüger, Arquiteto de Operações com IA

**Sua jogada**

- Escolha uma anotação recorrente do seu atendimento e deixe a IA rascunhar enquanto você conduz a conversa
- Aplique a regra do consultório: a IA escreve o rascunho, você revisa e assina antes de virar registro oficial
- Meça o tempo devolvido por semana antes de expandir a automação para outras etapas do atendimento
- Só escale depois de validar a qualidade do rascunho em casos reais, não na demonstração do fornecedor

O consultório particular é só o primeiro endereço. O plano seguinte da Tivita é fazer o Tom funcionar sobre prontuários de qualquer sistema, não só o dela, com foco em hospitais e operadoras de saúde que ainda dependem de plataformas legadas, difíceis e caras de substituir de uma vez: o caminho mais curto é instalar um agente que resolve o registro por cima do que já está lá [1]. Traduzindo para qualquer profissão de atendimento: ouvir o cliente e registrar o que foi dito são duas tarefas diferentes, e só uma delas precisa da sua caneta. A outra pode ficar com a máquina, desde que a assinatura continue sendo sua.

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## Referências

1. [Exame: Tivita cria 'copiloto' de médicos para registrar consultas com IA](https://exame.com/inteligencia-artificial/tivita-cria-copiloto-de-medicos-para-registrar-consultas-com-ia/)
2. [Tivita: Prontuário toma até metade do tempo da consulta](https://tivita.com/conteudos/prontuario-consulta-carga-administrativa)
3. [ProDoctor: Prontuário com IA: como usar com segurança e eficiência](https://prodoctor.net/blog/prontuario-com-ia)
4. [Exame: Médico brasileiro já usa mais IA para diagnosticar do que para preencher papelada, mostra pesquisa](https://exame.com/inteligencia-artificial/medico-brasileiro-ja-usa-mais-ia-para-diagnosticar-do-que-para-preencher-papelada-mostra-pesquisa/)
5. [Exame: dr.consulta gera R$ 1,2 milhão por mês com agentes de inteligência artificial](https://exame.com/inteligencia-artificial/exclusivo-dr-consulta-gera-r-12-milhao-por-mes-com-agentes-de-inteligencia-artificial/)
